O AELO ON reproduz, a seguir, importante reportagem da jornalista Gabriela Ferrarez, publicada no Jornal ND, de Florianópolis, na quinta-feira, 17 de julho. É um caso recordista em dimensão entre os exemplos de loteamentos ilegais ou clandestinos do País.
Fotos mostram como esquema de mil lotes irregulares transformou área de Florianópolis. Família da capital catarinense que vendia lotes ilegais foi responsável por um dos “maiores crimes urbanísticos” da cidade, de acordo com a Justiça de Santa Catarina.

Imagem de satélite feita em julho de 2025 mostra como ruas apontadas pela Justiça estão ocupadas com lotes irregulares – Foto: Google Earth/Reprodução/ND
Um mapa mostra as ruas do bairro Rio Vermelho, em Florianópolis, onde foram identificados lotes ilegais vendidos pela família Guimarães — condenada a 18 anos de prisão no dia 10 de julho. A Justiça catarinense considerou que o grupo foi responsável por um dos “maiores crimes urbanísticos” da capital.
A sentença do juiz Renato Guilherme Cunha, do Foro Criminal do Continente, aponta que o ex-corretor de imóveis Gilvã Guimarães vendia os lotes ilegais por meio de uma imobiliária que mantinha com a esposa e os irmãos. A investigação concluiu que a família lavava milhões de reais com empresas fantasmas, como um posto de combustível e uma jazida. O caso foi revelado pela Operação Acapulco.
A “quadrilha Guimarães”, como foi chamada na sentença, teria invadido terras, desmatado áreas de Mata Atlântica, aberto ruas com retroescavadeira — que não tinham pavimentação nem rede de esgoto —, construído casas e ligado energia elétrica clandestinamente, os famosos “gatos”.
A sentença detalha uma lista de ruas onde, segundo a Justiça, houve atuação ilegal da família Guimarães, incluindo práticas como parcelamento irregular do solo, venda de lotes sem regularização e crimes ambientais. É importante destacar que nem todos os terrenos e construções dessas vias estão relacionadas ao esquema. No entanto, a Justiça afirma que esses endereços concentram a maior parte das áreas investigadas. O mapa abaixo destaca os locais citados na decisão, com base nos registros reunidos pela investigação.
- Servidão Joesi Guimarães da Silva
- Servidão Gérberas
- Servidão Onze Horas
- Servidão Tulipas Vermelhas
- Servidão Rio Vermelho
- Servidão Antônia Castro Garcia
- Rua Cândido Pereira dos Anjos
- Servidão Caminho do Arvoredo
Ao todo, são estimados que mil lotes foram vendidos de maneira irregular, em uma área que compreende meio milhão de metros quadrados no bairro Ingleses do Rio Vermelho.
O que a Justiça diz que ocorreu em cada rua
Conforme a decisão judicial, Gilvã parcelou e vendeu ilegalmente terrenos nas servidões Joesi Guimarães da Silva, Gérberas, Onze Horas e Tulipas Vermelhas. Nessas vias, foram comercializados lotes sem registro no cartório de imóveis e sem qualquer infraestrutura básica, como rede de esgoto, drenagem ou pavimentação. Para atrair compradores, o grupo prometia uma futura regularização dos terrenos, o que nunca ocorreu.
Na Servidão Tulipas Vermelhas e na Servidão Caminho do Arvoredo, Gilvã firmou contrato com um empresário para transformar três glebas em 64 lotes. Todos foram classificados como clandestinos pela Justiça.
Já entre a Servidão Rio Vermelho e a Servidão Antônia Castro Garcia, segundo a sentença, Gilvã foi responsável por dois episódios de supressão ilegal de vegetação nativa da Mata Atlântica, em 2018 e 2020. Em ambas as ocasiões, ele excedeu os limites de autorizações ambientais e violou embargos vigentes na área.
A gleba desmatada, de 3,2 hectares, tem testada para a Rua Cândido Pereira dos Anjos, onde também houve movimentações fraudulentas de documentos e simulações de venda para encobrir a origem da posse de alguns terrenos.
A Justiça apontou ainda que Gilvã se utilizava da fachada de uma imobiliária familiar para operar os negócios. Seus irmãos agiam como corretores e intermediavam as vendas. A esposa, envolvida na movimentação financeira dos recursos obtidos com os lotes, lavava o dinheiro proveniente das vendas ilegais.
De acordo com a sentença, ao menos 21 pessoas foram enganadas pela família entre 2018 e 2024, com a promessa de lotes por preços abaixo do valor de mercado e regularizados. Os terrenos variavam entre 360 m² por R$ 200 mil e 169 m² por R$ 65 mil.
“Os consumidores eram induzidos a erro pelos irmãos Guimarães, com a falsa informação de que o lote seria regularizado tão logo fosse pago o IPTU, ou que a regularização ocorreria em curto espaço de tempo, o que não ocorreu até o momento”, afirma a sentença.
Imagens de um mapa mostram as ruas onde ficam os lotes ilegais vendidos pela família Guimarães e exibem como a área era em 2018, quando o corretor de imóveis começou a ser investigado, e como está atualmente.
Veja antes e depois da área ocupada pela família Guimarães
O que diz a defesa do corretor de imóveis condenado
A defesa de Gilvã Guimarães afirmou ao ND Mais que “não concorda com a sentença e deverá apelar para provar a inocência”. Os advogados ressaltam que “não há registro de qualquer representação criminal por parte dos compradores de imóveis, tampouco comprovação de dolo ou indução a erro”.
“Confiante no devido processo legal e na atuação isenta do Poder Judiciário, a defesa aguarda decisão que reconheça a improcedência das acusações”, completou.
Como corretor de imóveis lavava a fortuna ganha com a venda de lotes ilegais em bairro de Florianópolis
O dinheiro da venda dos lotes ilegais era destinado à conta de um posto de gasolina. No entanto, a investigação afirmou que, onde deveria estar localizada a sede da empresa, existe “apenas uma árvore e terra nua”.
Os valores das vendas dos lotes ilegais, que chegaram a R$ 20 milhões, eram depositados pelos compradores dos terrenos em pequenas parcelas. Por exemplo, um débito de R$ 50 mil era quitado em 21 parcelas de R$ 2 mil ou R$ 3 mil. A técnica “smurfing”, segundo o TJSC, era utilizada para disfarçar os grandes montantes movimentados por Gilvã e sua família.
Além do posto de gasolina, o dinheiro também passava pelas contas da empresa Jazida Guimarães, que nunca existiu, e era usado na compra de carros de luxo e motos aquáticas.
O ex-corretor de imóveis foi condenado a 18 anos e seis meses de prisão. A sentença, assinada pela Justiça da Capital, determina ainda o pagamento de multas que somam mais de 600 salários-mínimos e a perda de 13 veículos e embarcações adquiridos com recursos oriundos do esquema.
O corretor e a esposa cumprirão pena em regime fechado. Os irmãos, em regime semiaberto. A decisão é de primeira instância e ainda cabe recurso.





